Profano: Piratas e Cthulhu

O Velho Pirata
Em que somos apresentados ao Velho Ben

A história começa uns anos após a deposição do Rei Jaime II, na última década do Século XVII. A paz voltara a reinar no interior da Inglaterra, embora os jacobitas, aqueles partidários do velho rei católico, ainda se revoltassem de vez em quando nas Highlands escocesas e na Irlanda. Por sua vez os últimos dos radicais puritanos que bradavam por igualdade, aqueles mesmos Levellers e Diggers que lutaram ao lado de Cromwell quarenta anos antes, estavam mortos em forcas inglesas ou tinham sido expulsos para o Novo Mundo. O Parlamento vencera e Londres agora era a senhora dos mares, embora enfrentasse a França de Luís XIV em uma guerra na Europa.

Mas a história se passa, na verdade, do outro lado do mundo. Port Royal era um antro de piratas e bandidos. Capital da Jamaica e principal porto inglês no Caribe. Tão atroz e decadente que dizem que um pastor quacre se recusara a descer do navio em que viajava e botar os pés naquela sombra de Sodoma e Gomorra. E amaldiçoara a cidade, dizendo que ela iria conhecer a fúria de Deus.

Port Royal era um antro realmente. Mas um antro bem movimentado. Perto do porto, bem próximos de onde os navios atracavam, havia uma série de estalagens e prostíbulos. Entre elas minha taverna preferida ficava ao lado do prostíbulo de George, aquele velho e gordo pirata barbudo assassino que resolvera se aposentar dizendo: “depois de um navio pirata, o melhor lugar do mundo é um puteiro”. Bem ao lado ficava a estalagem e taverna Time and Tide. O taverneiro havia levado uma flechada no joelho de índios em uma das ilhas do caribe quando era jovem. Por isso mancava. Apesar disso, ele fazia uma das melhores cervejas da região.

Em uma mesa da estalagem, o velho Ben, um pirata quase cego, sentava-se no canto da taverna toda as noites. Bebendo seu grude e contando velhas histórias sobre navios e tesouros piratas e monstros dos mares. Diziam que o velho Ben fora um cavaleiro defensor dos Stuarts, antes de fugir para as colônias quando Cromwell decapitou o rei. Ben dizia que servira sob as ordens do capitão Vennick, um dos corsários ingleses mais temidos do mar, cujo navio havia desaparecido em uma tempestade, duas décadas atrás.

Era uma noite chuvosa, com um nevoeiro que vinha da direção do mar, quando a aventura que nos levou a enfrentar franceses, espanhóis e monstros ainda mais temíveis começou.

View
De como o velho Ben chegou a Port Royal
Em que conhecemos um pouco da história do velho Ben

Mas antes, é preciso lembrar algumas coisas. Como eu disse, o velho Ben contava que, durante a Guerra Civil, lutara pelo Rei Carlos. Participara da batalha de Marstoon Moor, sob o comando do Príncipe Rupert, em 1644. E depois, fora capturado quando os realistas foram derrotados pelo Parlamento em Naseby, no ano seguinte.

Depois de solto acabou emigrando para o Novo Mundo. E após uma rápida passagem por Bermudas, se estabeleceu na Ilha de Barbados. Naquela época, Barbados, com cerca de trinta mil habitantes, era a maior colônia inglesa das Índias Ocidentais. Bem maior do que as pequenas colônias em Chesapeake e Nova Inglaterra. Era também uma das poucas colônias americanas que permanecera fiel ao rei no exílio, o jovem Carlos II.

Ben contava que logo depois de chegar em Bridgetown, caiu nas boas graças de Lorde Willoughby, o Governador Realista da colônia. Entretanto ele logo entrou em uma confusão. E uma noite, em uma taverna no porto de Bridgetown, segundo Ben “Eu levantei um brinde ao bom Rei Charles II!”. Mas eram tempos complicados, em que a ilha estava dividida entre cavaleiros e cabeças-raspadas, os partidários do Rei e do Parlamento. E calhou de três ou quatro cabeças-raspadas estarem na mesma taverna naquela hora. E não gostarem do brinde proposto por Ben. Acusações foram trocadas.

“Quando o rei foi decapitado, eu desafiei aquele patife do Emmanuel Jackson, um pequeno comerciante da ilha que era partidário do traidor Cromwell. Ele havia dito que eu devia me calar agora que o falso rei estava morto. E o herdeiro no exílio. Ele pagou com a vida pela insolência”, dizia o bêbado Ben enquanto batia com sua caneca de madeira na mesa e ensaiava como dera uma estocada em Jackson. A história sempre mudava um detalhe ou outro, mas sempre terminava com o traidor morto e os amigos correndo, expulsos pelo valente Ben da taverna. Às vezes, na pressa eles tropeçavam em uma corda de navio e caiam pela beira do cais. Outras apenas fugiam em desabalada carreira, gritando que iriam se vingar. Uma ou duas vezes, Emmanuel nem teria morrido, teria levado apenas uma estocada e corrido junto com seus amigos.

Mas Ben estava seguro, pois era amigo do Governador. Entretanto, pouco tempo depois da briga, chegou uma frota enviada pelo Parlamento para ocupar a ilha e após meses de cerco, o Governador Willoughby se rendeu e partiu para Londres. A situação, então, piorou enormemente para Ben, pois os amigos de Emmanuel Jackson queriam se vingar dele. Para não sofrer a vingança dos partidários de Cromwell, ele se engajou na tripulação de um navio mercante holandês e foi dessa forma que acabara parando em Port Royal, na Jamaica.

Bem, essa era a história que o velho Ben contava para explicar como virara um pirata – ou melhor um corsário, como ele mesmo fazia questão de dizer. Pois fora em Port Royal que ele se engajara no navio do capitão Vennick, o Bloodstone.

View
De como o velho Ben se tornou um filibusteiro
Henry Morgan e o saque de Porto Bello

Quando o velho Ben, ainda não tão velho, chegou em Port Royal, a Jamaica era a mais nova conquista inglesa nas Índias Ocidentais. Os espanhóis nunca haviam dado muita importância para a ilha, que não tinha ouro. Assim, os ingleses encontraram uma ilha quase desguarnecida e a ocuparam, fundando Port Royal em 1655.

Para combater os espanhóis, o governador da ilha chamou os piratas da Irmandade da Costa para se basearem em Port Royal. Logo, os piratas, transformados em corsários, passaram a atacar os navios espanhóis e a rivalizar com os bucaneiros franceses da ilha de Tortuga.

Ben contava que conhecera o mais famoso dos corsários, Henry Morgan. Participou da expedição contra Porto Bello, em que Morgan liderou uma frota de treze navios e mais de mil homens contra o importante porto espanhol. As histórias do saque de Porto Bello fariam uma dama corar se as escutasse. Claro, isso se houvesse uma dama na Time & Tide.

Os espanhóis achavam que a cidade, bem protegida por seus fortes, não podia ser tomada. Mas Morgan liderou seus homens por um ataque pela terra e os surpreendeu. Os espanhóis tentaram se proteger na Fortaleza de San Jerônimo. Morgan, então, usou as freiras e os cidadãos de Porto Bello como proteção para seu ataque às muralhas da fortaleza. Os espanhóis, horrorizados, foram forçados a disparar suas armas contra seus próprios concidadãos. A fortaleza caiu e Morgan ordenou que a cidade fosse saqueada. Pelo que conheci do velho Ben, tenho certeza que aquele patife cruel foi um dos piores saqueadores. Depois de alguns dias de diversão e saque, os corsários carregaram seu navio com os frutos da incursão e voltaram para Port Royal.

Ben logo gastou todo o dinheiro que ganhara. Seu amigo George, ele dizia, fora mais sábio e comprara logo um prostíbulo na beira do porto, trazendo umas prostitutas irlandesas e francesas para a cidade… além de doença e corrupção, segundo os pastores. Mas em Port Royal, a opinião dos homens de fé não valia muito. A maioria dos cidadãos nobres viviam nos arredores da cidade, em suas fazendas de tabaco e cana-de-açúcar. Ou na parte alta da cidade, o mais afastado possível do porto. Embora eles dependessem de nós, homens da irmandade, eles nos odiavam.

Foi pouco depois de Porto Bello que Jonathan Vennick chegou a Port Royal. Ele que iria se tornar um inimigo de Henry Morgan.

View
Em que é mencionado o Capitão Vennick
O Tesouro do Capitão Vennick

Jonathan Vennick era um daqueles Puritanos ingleses que se consideravam com tanto direito quanto os nobres, os Igualitários. Haviam lutado por Cromwell contra a tirania real e depois foram traidos por ele. Com a volta dos Stuart ao trono, muitos deles que ainda viviam em Londres acabaram perseguidos, principalmente após o Ato de Uniformidade. Os radicais que ainda não haviam partido para o Novo Mundo, foram enforcados ou deportados para Barbados e Jamaica. Eu mesmo ainda me lembro de ter visto a cena dos postes com os últimos Igualitários enforcados na beira do Tâmisa.

Assim, milhares de prisioneiros e degradados escoceses, galeses, irlandeses e ingleses acabaram nas colônias das Índias Ocidentais. No início eles trabalhavam nas plantações, servindo por sete anos antes de terem direito a um pedaço de terra. Muitos deles se recusavam a trabalhar como escravos e fugiam para o interior ou para Port Royal. Também começaram a chegar alguns negros vindos da África para substituir os irlandeses e ingleses que antes trabalhavam nas plantações.

Port Royal cresceu enormemente e já era uma cidade com alguns milhares de habitantes. Além de marujos e prostitutas, agora mercadores e proprietários das plantações tinham casas na cidade. Dezenas de tavernas, estalagens e prostíbulos se alinhavam na beira do cais. Navios ingleses chegavam e partiam carregados de tabaco e cana ou então para atacar os galeões espanhóis em busca de ouro.

E foi em busca do ouro espanhol que o capitão Vennick chegou e reuniu uma tripulação. Ben contava umas três histórias diferentes de como ele se juntara ao capitão. Em uma delas, ele estava em um navio que fora abordado e aceitara se juntar a tripulação pirata. Em outra ele se juntara a tripulação do Bloodstone depois do saque a Maracaibo. E na terceira ele salvara Vennick de um espadachim espanhol e este o convidara para sua tripulação.

E então, ele batia na mesa com sua caneca de madeira, e dizia: “E eu fui o único sobrevivente do Bloodstone. Pouco depois do capitão ter descoberto o tesouro que os espanhóis procuravam”.

Porque todos em Port Royal sabiam que o navio do capitão Vennick havia desaparecido com um enorme tesouro. Um tesouro que o próprio Drake, um século antes, havia perdido a vida em busca.

E cada vez que algum viajante novo chegava na Time & Tide, ele contava a história de como havia um mapa do tesouro de Vennick. E que um escocês havia lhe dito onde encontrar o mapa antes de desaparecer na prisão do maldito Don Duarte de Zunillo.

É claro que ninguém acreditava no Velho Ben. Nem eu, até aquela noite chuvosa e nevoenta.

View
Sobre os piratas de Port Royal
Um exemplo da escória do porto

O neveoiro era espesso e a chuva fria, levando a imaginar que estavámos em Londres. Exceto que o fedor londrino era substítuido pelo cheiro do mar. Não dava para ver muito à frente.

Eu via o velho Ben andando rápido à frente. Ben levava uma sacola na mão e o que parecia uma pá, o que era realmente incomum. Normalmente, ele era visto com uma garrafa de grude. Logo ele sumiu no nevoeiro, mas eu ainda escutava sua perna de pau batendo contra as madeiras do cais. Pois, como ele gostava de contar, havia perdido a perna na prisão do Conde de Águilar. Ou depois do saque de Maracaibo, em outra versão. Ainda mais incomum, ele havia virado na direção contrária da Time & Tide. Em direção aos limites da cidade, como se fosse para a Igreja.

Port Royal era conhecida pelas brigas e mortes que aconteciam todas as noites em suas ruas. A cidade havia crescido e tinha cerca de seis mil habitantes. Boa parte deles vivia do ataque aos navios que cruzavam o mar do Caribe. Junte alguns milhares de maus-elementos em uma pequena cidade, com bebida, mulheres e dinheiro de saques para gastar e você terá uma ideia do perigo de andar a noite na cidade.

Para que o leitor entenda o perigo de andar nas ruas de Port Royal, é melhor eu falar sobre alguns dos corsários que, na opinião dos fazendeiros e do novo governador, compunham a escória do cais de Port Royal, e que depois acabaram se juntando na aventura em busca do Tesouro do Capitão Vennick.

Tom Ruivo era um irlandês que fora preso e enviado para trabalhos forçados em Barbados, mas fugira de lá. Jack Mãos-leves fora preso e quase enforcado em Londres, mas conseguiu escapar e acabou em um navio pirata depois de várias aventuras. Robb e Thobias Davenport, dois irmãos sobreviventes de uma família de seis, todos bucaneiros – eles haviam perdido dois irmãos para os espanhóis, um para a lei inglesa e um em uma briga de taverna. Jeb Smith, neto de Diggers que foram enforcados em Londres e de pais enforcados em Port Royal – todos diziam que seu destino era ser enforcado também. Jonh Overton, apelidado de Pastor, que se dizia descendente do famoso Leveller.

Jack Cicatriz, um dos mais violentos em qualquer abordagem, que servira no navio de Roche Brasiliano. Dutch era um holandês que se juntara a tripulação corsária que abordara o navio em que viajava. Ele odiava os espanhóis e vira ali uma boa chance de continuar a lutar contra eles. Tom Negro, Próspero, Savanah e Omar ibn Omar, ex-escravos negros que preferiram se juntar à Irmandade da Costa. Cudjoe era um maroon das montanhas, que nascera no interior da África, e que sentira o gosto do mar. Todo capitão corsário gostava de ter uns dois ou tres maroons em sua tripulação, pois eram considerados ótimos guerreiros. Tom Rude, um galês enorme e mau-encarado e Tom, o Jovem, um rapaz em sua primeira viagem ao mar.

Por esses exemplos, o estimado leitor já pode ter uma ideia dos tipos que infestavam Port Royal. E esses não eram nem os piores. Então perceberia porque todos andavam armados pelas ruas de Port Royal. Nem mesmo os soldados da guarnição se atreviam a patrulhar o cais durante a noite, preferindo recolher os cadáveres ao amanhecer.

Ainda mais em uma noite como aquela.

View
O Tesouro de Vennick
Em que Ben conta mais uma vez a história do Tesouro

Pois aquela era uma noite estranha. Parte da culpa eu atribuo ao velho mentiroso. Não é de estranhar que o velho Ben também fosse chamado de velho maluco ou Ben Mentiroso. Para dizer a verdade, poucos acreditavam nas histórias do velho marujo. Mas as vezes, em noites de tempestade, ele se excedia.

Aquela noite era uma delas. A taverna estava cheia. O velho Ben em seu lugar habitual, contando suas histórias. Primeiro a de como havia quebrado a cara de três espanhóis usando apenas uma caneca de madeira. Nessa noite, havia alguns espanhóis na taverna, pois a Inglaterra e Espanha estavam em paz. E eles não gostaram muito das piadas de Ben.

Mas Ben pareceu se animar. Havia alguns outros viajantes novos na taverna. Uns marujos mal-encarados de um navio negreiro. E ele começou a contar a história do tesouro do Capitão Vennick. Eu já a havia ouvido uma dezena de vezes, e os detalhes sempre mudavam um pouco. Mas havia uma parte que Ben nunca mudava e que sempre dava arrepios em meu jovem coração. O leitor talvez nunca tenha ouvido falar das lendas do mar… mas, bem, vamos a história, a partir do momento em que eles encontraram a ilha com o tesouro, como eu me lembro de Ben a contando.

“O bote com o Capitão Vennick, o contramestre Hobbes, eu mesmo e mais sete marujos se aproximou da costa tempestaduosa da Ilha da Caveira. O outro bote que partira do Bloodstone, virou ao tentar passar pela arrebentação. Nós ouvimos os gritos dos homens abafados pelos trovões e pelo barulho das ondas” – e com isso ele batia sua caneca com força na mesa. E lá fora a tempestade parecia aumentar.

“Os gritos logo pararam. Dez companheiros haviam morrido no mar, ao nosso lado. Isso era um enorme sinal de azar. Alguns dos marujos faziam o sinal da cruz. Nosso bote milagrosamente chegou a praia. Desembarcamos em uma pequena baia na costa oeste da ilha. Por sorte haviamos protegido nossas armas e munição contra a água, enrolando-as em um pesado tecido oleado. Armados, avançamos em direção a ilha e ao tesouro. O tesouro que o próprio Drake havia tentado esconder”.

“Adiante, além do som dos trovões podíamos ouvir uma batida ritmada. O barulho de uma centena de tambores. Nos aproximamos cautelos, subindo a montanha mais alta da ilha. Era um avanço difícil, em meio à chuva e o vento. No alto, encontramos uma construção na entrada de uma caverna. Parecia um templo antigo desses selvagens do continente. Uma construção de pedras pesadas, com o rosto de um demônio esculpido na entrada da caverna”.

“Alguns titubearam, mas o capitão seguiu em frente. Eu o acompanhei. Os outros acabaram ganhando coragem, ou o medo de ficarem lá fora, na floresta escura, os fez seguir o capitão. Atravessamos a caverna, ouvindo o barulho dos tambores cada vez mais alto. A frente, dois selvagens guardavam o caminho na caverna. Eu e o capitão nos aproximamos sorrateiramente e os matamos. Os outros nos seguiram”.

Lá fora, no porto, um novo trovão caiu e iluminou a taverna. Aqueles que nunca haviam escutado essa história já estavam calados, atentos ao velho Ben. Até mesmo os espanhóis e os traficantes de escravos. Ele esperou o som do trovão parar e continuou:

“E então avançamos até chegar a um grande espaço aberto no centro da montanha. Nele uma centena de índios selvagens com os rostos pintados em horríveis padrões dançavam ao redor de um altar. Um feiticeiro erguia uma faca de pedra verde, pingando de sangue. Pois no chão estavam os corpos de vários marujos de um navio espanhol que havíamos visto afundar do outro lado da ilha. O feiticeiro havia acabado de enfiar sua adaga no coração do capitão do navio. E agora a última vítima era arrastada em direção ao altar. Uma linda dama espanhola. Provavelmente a azarada filha de um nobre a caminho de Cartagena ou Panamá”.

Os índios gritavam: “Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn”. Um outro trovão ressoou bem no momento em que o velho marujo imitava o canto dos índios. Um dos garotos que ouvia o velho Ben derrubou o copo com metade da cerveja ao ouvir o velho Ben pronunciar aquelas palavras em uma língua que eu nunca soube dizer qual era. Eu mesmo tremi novamente nas bases. Acho que todos os marujos na taverna tremeram.

Com o canto dos olhos, eu ainda pude reparar que um dos traficantes de escravos quase levantou naquela hora, mas foi seguro pelo que parecia o líder.

View
Ainda o conto do Tesouro
O velho Ben continua sua história do tesouro

O velho Ben gritou “Jovem, seja útil e me traga outra cerveja” e continuou sua história, batendo com sua caneca na mesa quase em sincronia com um trovão lá do lado de fora:

“O Capitão Vennick viu a dama em perigo e disse aos homens que preparassem suas armas e o seguissem. Os outros se encolheram de medo ao escutar o canto dos selvagens. Lá em cima, pela abertura na montanha, podíamos ver o céu estranhamente cheio de estrelas, apesar de que quando entramos na caverna o céu estava encoberto de nuvens pesadas. Os homens pareciam congelados pelo pavor, até o Sr. Hobbes. Então eu gritei “Temos de seguir o capitão” e os homens pareceram acordar do transe. O capitão já avançava pelo grande espaço aberto em que a caverna se abria, no interior da montanha”.

“Os índios estavam concentrados em olhar para o sacerdote que segurava a faca em direção à dama espanhola. O capitão abriu fogo com sua pistola, derrubando o sacerdote. Os índios se viraram assustados e o capitão gritou “Agora”. Nós disparamos nossos mosquetes em uma carga, derrubando sete ou oito selvagens. Eles abriram um círculo e o capitão avançou disparando sua segunda pistola em um dos selvagens. O Sr. Hobbes gritou, “Pistolas!” e a esse comando nós sacamos e atiramos. Mais selvagens caíram e o resto recuou. O capitão soltou a jovem dama, que era realmente bela. Ela estava tonta. Ele a jogou nos ombros e gritou para os homens: “Recuem”.

“Nós começamos a recuar, mas os índios se recuperaram da surpresa e jogaram suas lanças. Um dos homens foi atingido e caiu. Infelizmente, não havia como voltar ao túnel de onde saíramos. Olhando rapidamente, o Sr. Hobbes viu uma outra entrada na montanha e nós corremos para lá, com os índios em nossos calcanhares. Na fuga, outro dos homens foi alcançado pelos selvagens e derrubado. Na entrada dessa segunda caverna, três homens podiam combater os selvagens, enquanto os outros recarregavam as armas. Mais um dos nossos caiu morto, mas ganhamos tempo suficiente para recarregar e atirar. Os selvagens se assustaram e recuaram mais uma vez”.

O rapaz retornou trazendo a cerveja. O capitão a pegou e continuou seu conto após um longo gole de suspense.

“Aproveitando a hesitação dos selvagens, o capitão organizou a defesa e mandou que eu, Hobbes e um dos rapazes, aquele escocês sortudo, explorássemos a caverna em busca de outra saída. Nós rodamos por algum tempo. Mas homens, quando acendemos uma tocha e iluminamos a escuridão… se descortinou um enorme salão, cheio de objetos de ouro, rubis e pedras preciosas havíamos encontrado o tesouro digno de um galeão espanhol da frota de Lima!”

View
O espanhol desafia o velho Ben
Em que a situação na taverna fica tensa

A menção ao tesouro fez os olhos de todos brilharem. O velho Ben contava essa história a tanto tempo em Port Royal que ela havia se tornado uma lenda. Mas ela tinha uma base em umas histórias ainda mais antigas.

Os primeiros espanhóis a chegarem ao caribe descobriram que os antigos índios das ilhas falavam de uma tribo selvagem que habitava em uma das ilhas e que saqueava e sequestrava para sacríficios para seus deuses. Eles possuíam grande riqueza, que atiçou a cobiça dos espanhóis em busca a Isla de la Matanza ou Isla de la Muerte, como traduziram a partir dos relatos dos índios de Hispaniola. Mas os espanhóis nunca acharam a ilha e ela virou apenas um relato esquecido. Dizem que Drake também buscou a Ilha da Matança e, pouco antes de morrer, a teria encontrado e feito um mapa indicando como achá-la.

O capitão Vennick, por sua vez, era um dos maiores capitães corsários da Jamaica. Ele e Henry Morgan se odiavam. Quando Morgan voltou da Inglaterra como govenador da Jamaica, em 1674, Vennick ficou em uma posição díficil. Morgan, agora governador, ordenou a prisão dos piratas e chegou a prender o capitão. Mas esse escapou da prisão, juntou sua velha tripulação, e partiu em seu barco, o Bloodstone.

Ele nunca retornou a Port Royal. Alguns anos depois, o velho Ben reapareceu na cidade, dizendo ser o único sobrevivente do naufrágio do Bloodstone, o navio de Jonathan Vennick. Ele contou como o navio naufragara depois de descobrir o grande tesouro da Ilha de La Matanza. E de como ele ficara preso em uma prisão espanhola por anos, até escapar com a ajuda do fantasma do capitão Vennick. Ele dizia que sabia onde estava o tesouro, mas a verdade é que ele passou a ser considerado maluco por todos. Diziam que ele tinha perdido os miolos na prisão espanhola. O velho Ben acabou alugando um quarto no andar de cima da Time´n´Tide e suas histórias viraram parte da lenda local.

Ainda assim, a história do Tesouro sempre levantava a mesma reação do público… medo dos selvagens e olhares cobiçosos na descrição da riqueza. Mas sempre havia um dos viajantes novos que questionava a história, rindo do velho louco. Dessa vez, foi um dos espanhóis, que em um inglês arrastado, disse que era uma boa história para crianças e tolos.

O velho Ben se levantou furioso, parecendo que ia atirar a caneca na direção da cabeça do espanhol e começar uma briga. Ao invés disso ele puxou uma corrente e a ergueu acima da cabeça, dizendo:

“Pois eu trouxe isso de minhas aventuras com o capitão Vennick, que nem os malditos espanhóis conseguiram me tirar!” disse, mostrando um pequeno ídolo dos selvagens amarrado na corrente. Nesse momento, como por uma coincidência nefasta, um relâmpago iluminou a taverna e pareceu refletir no monstruoso ídolo. Todos tremeram. Ben nunca havia mostrado prova do tesouro antes, mas o ódio dele por espanhóis o levara a mostrar seu segredo.

O silêncio só foi quebrado por uma voz que gritou algo em uma língua horrorosa. Algo que soava como “Cthulhu fhtagn!”

View
Sobre os misteriosos traficantes
Em que o velho Ben foge assustado

“Cthulhu fhtagn!” – o som dessas palavras ainda ressoa em meu coração, fazendo-o bater mais forte com medo.

Aquela noite na taverna foi a primeira vez em que ouvi aquele som gutural. Não sei que língua maldita era aquela, mas era de gelar o coração. Ela parecia ainda mais forte e assustadora que o trovão que se seguiu. Quem a falara fora um dos traficantes de escravos. Um mestiço com uma cicatriz no queixo e um olhar que já me fizera desviar os olhos umas duas vezes com medo de encará-lo. O capitão do navio segurou no braço do mestiço, como se o mandasse se calar.

Mas o velho Ben escutara o que o traficante dissera e se apoiou em um dos rapazes que havia se sentado em sua mesa, um mouro que já lhe havia servido cerveja. Eu digo que ele era um mouro, embora se vestisse como um dos espanhóis, pois havia visto a cimitarra que ele levava. Apoiado no mouro, ele caminhou até o balcão, onde conversou rapidamente com outro homem, um inglês que eu ainda não havia visto na taverna.

Ben, soube depois, havia passado mal ao escutar o som da frase maldita. Ele pediu ao inglês que buscasse seus pertences pessoais no seu quarto, que ficava no andar de cima da Time´n´Tide, pois não tinha condições de subir a escada e temia os traficantes. Precisava partir logo, e prometeu aos outros uma parte do tesouro de Capitão Vennick se eles o ajudassem a escapar. O judeu chamado Uri, que eu já conhecia de vista e de algumas conversas amigáveis, ouvira a conversa e foi ajudá-los. Com o Mouro o sustentando, o velho Ben se encaminhou para porta dos fundos.

Eles saíram pelos fundos. A taverna ficou estranhamente silenciosa, sem Ben Maluco para contar suas histórias. Resolvi aproveitar para mijar no beco lateral e foi quando vi o velho Ben se afastando na neblina. Não pude ver, mas ele estava acompanhado de outros três que iriam participar da busca do Tesouro de Vennick: O mouro Pablo, o inglês Michael Raven e o judeu Uri Tahan.

Um outro homem, vindo do outro lado do beco, os seguia. Eu já o tinha visto antes, o cozinheiro da taverna. Ele se chamava McDonalds e era grande, gordo e manco. Ele não conseguia manter o passo, e os outros se distanciaram dele. Era uma figura estranha.

Quando voltei a taverna quase me bati com um dos traficantes que saiam apressados da taverna. Um deles me perguntou, em um inglês horrível se eu havia visto o velho da perna-de-pau. Eu, assustado, disse apenas que não e eles saíram buscando o velho.

Lá dentro, vi que os outros traficantes também se levantavam e saiam pela porta principal, que dava para a rua do Cais. O capitão deles lançou as moedas para pagar ao taverneiro e saiu sem esperar troco.

Sentei-me de novo a mesa e perguntei ao amigo com quem bebia, um capitão de navio mercante, quem eram aqueles homens. Ele me disse, com um tom de voz que mostrava seu desprezo: “Uma escória de bandidos e piratas. Aquele é o capitão Hendrik Hofman, do DerZwartpit – O Poço Negro, um navio negreiro que estava comerciando sua carga aqui. Dizem que ele é um pirata e traficante de escravos”.

Se ele soubesse a verdade sobre aquele navio infame e seu capitão seu tom de voz seria de medo… pois aquele era um navio amaldiçoado. Sua tripulação era formada não apenas por holandeses, mas por um misto da escória de várias nacionalidades, que singravam os mares se alimentando da miséria humana a serviço de um deus maligno.

Eles haviam ouvido o velho Ben invocar o nome de seu deus e exibir o ídolo que havia tirado da Ilha misteriosa. E agora estavam atrás do blasfemador. Era por isso que o velho Ben quase desmaiara ao ouvir o mestiço, que soube depois se chamar Gomez da Cunha – um maligno feiticeiro, falar o nome do seu deus maligno… Cthulhu.

View
Em que a Busca ao Tesouro se inicia
O mapa e o diário do Capitão Vennick são desenterrados.

O resto da história eu não presenciei com meus próprios olhos e só posso contar a partir dos relatos dos participantes. Então, não posso afirmar o que é verdade e o que é mentira. De minha anotações, eu percebia que minhas fontes tendiam a exagerar na história – algumas mais do que as outras. Muitas das coisas que relatarei, o leitor irá considerar como mentira, mas esse foi o relato que chegou a meus ouvidos e passo a fielmente transcrever.

Após saíram da estalagem, Ben levou seus novos companheiros em direção a velha igreja nos limites da cidade. A chuva agora era torrencial e eles avançavam pelas ruas desertas de Port Royal, passando pelas poças de água e lama. Passaram pelo mercado do peixe e pela frente da igreja nova e seguindo pela Tower Street chegaram até a Igreja velha. Ben apontou para o cemitério e disse que precisavam da pá que ele mandara o judeu pegar para escavar o local onde ele escondera o mapa do tesouro e o diário do Capitão Vennick aqueles anos todos – o túmulo vazio de um certo Robert Walker, pelo qual Ben parecia demonstra uma certa raiva.

Começaram a escavar sob a chuva e o barulho dos trovões. Primeiro Raven. Foi quando Uri ouviu um barulho vindo de perto da Igreja. Ao ir investigar ele viu dois dos traficantes que avançavam, procurando o velho Ben.

Uri voltou e avisou a Raven e Pablo. O velho Ben ficou preocupado. Uri resolveu cavar, enquanto Raven e Pablo foram emboscar os dois traficantes. Enquanto Pablo os distraia, se aproximando pela frente, Raven se aproximava por trás e mirando na cabeça de um dos dois atacantes, ele disparou sua pistola contra a cabeça do homem, matando-o. Enquanto isso o outro sacava seu sabre e aparando um dos golpes do mouro, desferiu um contragolpe que feriu Pablo. Raven soltou a pistola descarregada, e sacando um sabre tentou atingir o segundo traficante, mas este se esquivou. Apesar disso, não conseguiu enfrentar os dois e foi finalmente atingido por um golpe da cimitarra do mouro.

Eles arrastaram os corpos dos traficantes para a Igreja, para tirá-los do caminho. Mas o tiro havia atraído a atenção de outras pessoas. Viram quando um homem gordo e manco apareceu na passa, surpreendendo-os. Raven puxou a sua pistola e a que pegara do traficante e apontou para o recém-chegado, Mc Donalds. Esse explicou que os vira saindo da taverna e ouvira algo sobre um tesouro. E que queria se juntar a eles, se eles precissassem de um cozinheiro bom de briga. Disse também que havia outros homens procurando-os, além daqueles dois que eles haviam matado.

Uri, ao escutar o tiro, cavara com mais afinco ainda, depois de mandar o velho Ben se calar por uns intantes. Ele conseguira achar o baú com o mapa, o diário de Vennick e um pequeno saco com algumas pérolas. Agora fora buscar os outros, mas não tiveram tempo de conversar, pois foram surpreendidos pela chegada dos outros três traficantes de escravos, que também haviam escutado o tiro.

O combate que se seguiu foi rápido e brutal. Um dos disparos de Raven falhou graças a pálvora molhada. Mas, por sorte, a pistola de um dos traficantes também falhou. Dois dos atacantes foram mortos e o terceiro tentou fugir, mas foi alcançado pelo judeu, que o matou com um golpe terrrivelmente preciso de sua lâmina.

Ainda sob a forte chuva, eles arrastaram e jogaram os corpos na vala, cobrindo com um pouco de terra, e fugiram dali, indo para um dos prostíbulos da cidade para se esconder durante a noite.

Lá encontraram o capitão Richard Adams, proprietário da chalupa Black Swann, e o contramestre, o Sr. Logan, que discutiam com um comerciante, tentando vender umas mercadorias que haviam conseguido após saquear um navio espanhol. Uri percebeu que o comerciante não aceitou o preço pela carga e foi embora. Ele sentou-se a mesa do capitão Adams, pedindo uma cerveja, e conseguiu convencer o capitão a participar de uma expedição que poderia ser muito lucrativa.

Uri também conseguiu distrair dois traficantes de escravos, enquanto Pablo escondia o bêbado Ben no quarto em que Raven se divertia com duas prostitutas. Um dos traficantes era o imediato do navio Der Zwartpit, Johan Vanpiet, o outro era o estranho mestiço com a cicatriz no queixo que eu vira antes na taverna, Gomez da Cunha. Quando os dois foram embora, Uri, Pablo, Raven e MacDonaldos levaram Ben e o mapa do tesouro até o navio da capitão Adams, que estava ancorado no porto.

No dia seguinte, pouco depois do amanhecer, partiam de Port Royal, a bordo do Black Swan, em direção as Pequenas Antilhas.

View

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.